A importância da ciência na América Latina e no Caribe

Desafios e oportunidades para um futuro comum

Alexandre Almeida Del Savio*

Introdução

A ciência não é um luxo reservado aos países desenvolvidos, mas uma condição indispensável para o desenvolvimento soberano, sustentável e inclusivo de seus povos. Na América Latina e no Caribe, uma região caracterizada por uma diversidade cultural e natural sem precedentes, a ciência representa uma ferramenta estratégica para transformar recursos, enfrentar crises globais e promover sociedades mais equitativas. A importância de fortalecer os sistemas científicos e editoras universitárias é mais urgente do que nunca, especialmente em um mundo afetado pelas mudanças climáticas, pandemias e pela revolução digital.

A ciência como motor do desenvolvimento

Historicamente, as nações que investiram em pesquisa e desenvolvimento (P&D) alcançaram melhor integração à economia global, gerando inovação, empregos de qualidade e bem-estar social. Em contraste, a América Latina destina, em média, menos de 1% do seu Produto Interno Bruto para P&D (UNESCO, 2021), bem abaixo dos 2,7% dos países da OCDE (OCDE, 2025). Essa lacuna se reflete na capacidade limitada de transferência de tecnologia, na dependência de importações e na vulnerabilidade a choques externos.

A ciência, no entanto, não deve ser entendida apenas como geradora de patentes ou produtos, mas como um processo cultural e social que enriquece a democracia, fomenta o pensamento crítico e fortalece a tomada de decisões baseadas em evidências. Em um contexto marcado pela desinformação e pelas fake news, promover a alfabetização científica também é uma forma de defender a cidadania e a vida democrática.

Desafios locais e globais

A região enfrenta problemas que exigem soluções científicas próprias:

● Mudanças climáticas e sustentabilidade: A Amazônia, o pulmão do planeta, está em risco; o recuo das geleiras andinas ameaça a segurança hídrica; e as cidades enfrentam desafios crescentes em mobilidade, poluição e resiliência.
● Desigualdade social e digital: A exclusão tecnológica e a falta de acesso à educação de qualidade aprofundam as lacunas de desenvolvimento.
● Riscos naturais: Terremotos, furacões e inundações exigem sistemas de prevenção e resiliência com uma forte base científica.
● Saúde pública: A pandemia de COVID-19 demonstrou tanto a vulnerabilidade dos nossos sistemas quanto a capacidade da ciência regional de responder com inovação, desde modelos de ventilação hospitalar até vacinas desenvolvidas no Brasil.
Em todas essas áreas, a ciência latino-americana não deve se limitar a reproduzir agendas externas, mas deve construir suas próprias prioridades em diálogo com a comunidade global.

A ciência como bem comum e regional

Uma das características únicas da América Latina é a força de suas universidades públicas e comunitárias como centros de produção científica. Em muitos países, essas instituições concentram mais de 70% da pesquisa. Isso significa que o conhecimento científico na região está intimamente ligado à formação de novas gerações e à missão social da universidade.
A EULAC e as redes de editoras universitárias desempenham um papel crucial nesse ecossistema: democratizando o acesso ao conhecimento, destacando pesquisas que abordam problemas locais e consolidando uma voz distinta no debate científico internacional. Em um momento em que a produção acadêmica é frequentemente condicionada por grandes editoras comerciais, o trabalho das editoras universitárias é essencial para preservar a ciência como um bem comum e acessível.

Ciência, inovação e cultura

A importância da ciência transcende a esfera tecnológica. Ela também se manifesta em sua capacidade de redefinir a cultura, repensar a relação entre natureza e sociedade e imaginar futuros possíveis. O diálogo entre o conhecimento ancestral, as comunidades locais e a ciência moderna pode enriquecer a inovação, como demonstrado pela agricultura sustentável baseada no conhecimento indígena ou pela gestão comunitária da água em áreas rurais andinas.
Da mesma forma, a incorporação de tecnologias emergentes, como inteligência artificial, realidade aumentada e biotecnologia, deve ser enquadrada em princípios éticos e numa perspectiva de justiça social. Não se trata apenas de adotar tecnologias, mas também de questionar: a quem elas servem? Quais problemas resolvem? Qual o seu impacto na equidade e no meio ambiente?

Uma agenda estratégica para a América Latina

Para que a ciência tenha um impacto real na região, é necessário avançar com uma agenda estratégica que inclua:

● Investimento sustentado em P&D: exceder o limite mínimo de 1% do PIB e direcionar recursos para prioridades regionais.
● Cooperação regional: gerar redes de pesquisa transfronteiriças em mudanças climáticas, saúde, energia e digitalização.
● Fortalecimento Editorial: Consolidar plataformas de acesso aberto e visibilidade internacional para periódicos e livros universitários.
● Formação de talento: Integrar competências de pesquisa desde a graduação, seguindo metodologias bem-sucedidas em universidades latino-americanas.
● Vinculação com a sociedade e a indústria: Promover projetos de ciências aplicadas em agricultura, energia limpa, infraestrutura e bem-estar social.
● Ética e governança da ciência: Garantir transparência, equidade de gênero, inclusão social e respeito aos direitos humanos na produção científica.

Conclusão

A importância da ciência na América Latina e no Caribe não pode ser reduzida a indicadores bibliométricos ou rankings internacionais. Seu verdadeiro valor reside em sua capacidade de transformar realidades, construir soberania e abrir horizontes para o futuro. Investir em ciência significa investir em cidadania, democracia e dignidade.
A EULAC e as editoras universitárias são chamadas a desempenhar um papel crucial: serem guardiãs e disseminadoras de um conhecimento que não apenas explica o mundo, mas também o transforma. A ciência na América Latina não deve ser periférica ou subordinada; deve ser criativa, crítica e profundamente enraizada nas necessidades e aspirações dos nossos povos. Só assim podemos afirmar, com convicção, que a ciência não é um luxo, mas a ferramenta mais poderosa para a emancipação e o desenvolvimento.

*Doutor em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Coordenador do Programa VDC na Universidade de Lima. Ex-diretor do Instituto de Pesquisa Científica da Universidade de Lima.

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