Susane Barros
Directora
Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA)
Flávia Rosa
Profesora de la Universidade Federal da Bahia
As primeiras editoras universitárias no Brasil surgem a partir de 1950 como resultado da atuação de pequenos núcleos de editoração ou gráficas nas próprias instituições. Inicialmente sem critérios, objetivos e políticas bem definidas vão se estruturando, profissionalizando e organizando em movimentos associativos. No contexto baiano, o processo de criação das editoras universitárias foi lento e consolidado somente neste século e, embora ainda se tenha muito pouco dessa história registrada, sabemos que a participação feminina sempre foi invisibilizada e não sistematizada. O fato de os núcleos de criação dessas editoras serem originários de gráficas universitárias consolidou a atividade como sendo para o gênero masculino, já que lidar com máquinas impressoras e gerir uma unidade de produção não era “um ambiente propício às mulheres”.
O cenário da história da edição na Bahia, como em muitos lugares, foi protagonizado por homens durante muito tempo. Entre os séculos XX e XXI, apenas um nome do gênero feminino esteve vinculado à atividade editorial na Bahia: Arlete Soares à frente da Editora Corrupio criada a partir da motivação de publicar livros de seu amigo etnólogo Pierre Verger. As editoras universitárias baianas surgiram entre os anos 1990 e 2000, sendo duas vinculadas às universidades federais e quatro às estaduais. Entre as seis editoras associadas, cinco têm como dirigentes mulheres e duas delas atuam também na diretoria da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU).
No que se refere às editoras privadas, na atualidade, de acordo com Dantas et al. (2023, p. 82), “[há uma] tendência à equidade de gênero nos cargos de decisão das editoras. […], 53,4% dos responsáveis pelas editoras são homens (oito) e 46,7% mulheres (sete)”. Em âmbito nacional, a ABEU, entidade representativa, possui 130 filiadas, sendo 60 delas dirigidas por mulheres, tendo as regiões Sul e Nordeste do país o maior número de gestoras. Essa aparente tendência à equidade pode ser reveladora, na verdade, de desigualdades de gênero considerando que as oportunidades de ocupações prestigiadas favorecem os homens, enquanto às mulheres são oferecidas posições de pouco destaque e reconhecimento, como aponta Silveira (2022).
Em editorial intitulado “Existe uma feminilização do trabalho editorial?”, Silveira (2022, p. 10-11) reflete de maneira a induzir a essa pergunta afirmando que “[…] o próprio fato de a edição acadêmica constituir um trabalho de ‘bastidores’, que demanda altos investimentos de tempo e competências complexas, mas rende poucos dividendos em concursos e demandas de progressão na carreira, levanta o questionamento […]”. Além disso, dados suscitados em torno dos periódicos A1, da área de história no Qualis/Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), reforçam a afirmação de Silveira, “[…] levando-se em conta apenas os títulos editados no Brasil, há cerca de dois terços de mulheres na direção dos periódicos […]”. Ou seja, as mulheres estão presentes em cargos que não as visibilizam, nem pontuam satisfatoriamente nos mecanismos de avaliação de desempenho acadêmico.
Diante desse panorama, buscou-se, a partir de entrevistas com as gestoras das editoras universitárias baianas, verificar como se desenvolvem as práticas de edição nessas editoras universitárias e como elas atuam. Foi traçado um breve perfil de cada gestora (formação acadêmica, atuação, gestão do tempo), da caracterização da editora (dados gerais sobre a editora), bem como da perspectiva de gênero em relação ao catálogo dessas editoras. No que se refere ao perfil das gestoras, observa-se, em termos de formação, que não há no Nordeste cursos específicos para a área editorial, exercendo a ABEU um importante papel formativo reconhecido na fala de todas as entrevistadas: “o processo de capacitação, ele se intensifica quando a gente passa a fazer parte também das formações das reuniões da Associação. […] nesse processo coletivo, promover eventos, ações, atividades formativas” (G3).
Em relação à gestão do tempo, todas as gestoras se ressentem da dificuldade de conciliar as demandas da vida particular com as da vida profissional. Sobre as mulheres recaem os trabalhos com os cuidados, o que demanda o aperfeiçoamento de políticas de suporte à conciliação para evitar que as dificuldades sejam intensificadas. Há uma predominância da representatividade feminina nos conselhos e nas equipes editoriais em quase todas as editoras, apenas uma tem maioria de membros do conselho do sexo masculino. Embora haja uma prevalência do gênero feminino nos quadros das editoras e nos conselhos editoriais, na atualidade, é comum que as editoras recorram a empresas terceirizadas, vencedoras em certames de pregões, algo que dificulta um controle eficaz do gênero; percebe-se apenas que a etapa industrial vinculada a gráficas é exercida por alguém do gênero masculino que faz a gestão, e nas atividades de pré-impressão, em particular as empresas de revisão, há uma prevalência do gênero feminino.
Em relação ao catálogo das editoras, as gestoras afirmam que a perspectiva de gênero está diluída nas publicações do catálogo, apenas uma delas possui uma coleção voltada para estudos de gênero desde 2010, as demais não possuem ainda uma política direcionada para essas questões. No que se refere à representatividade das mulheres em seus catálogos, as gestoras não possuem os dados de forma sistematizada, somente uma delas tem um levantamento recente (2020 a 2023) com base no que afirma que mais de 65% dos autores que publicaram nesse período são do gênero feminino. Foi possível perceber ainda que cada gestora adota práticas diferentes relacionadas aos seus contextos e trajetórias das próprias editoras.
O foco de atuação muda conforme o perfil da editora e o seu momento histórico. Ou seja, editoras criadas mais recentemente tendem a adotar práticas que visem sua divulgação dentro da própria comunidade enquanto outras, já consolidadas, focalizam ações de formação de leitores, de qualificação da produção acadêmica ou de divulgação mais intensa extramuros da universidade. Parcerias para a realização de feiras e festivais literários – uma prática bastante comum para a promoção dos livros, dos autores e da própria universidade, pois os eventos literários oferecem espaço de diálogo com a comunidade –; parcerias firmadas entre as editoras e outros órgãos da própria universidade; cirandas de livros em escolas com autores de livros infantojuvenis; projetos de doação de livros no campus da universidade e em outros espaços; formação de autores por meio de cursos de escrita; publicação de prêmio literário de alcance em todo o território baiano; abertura de novos pontos de venda; mudanças no formato de lançamentos; ampliação dos formatos de divulgação dos autores e suas respectivas obras são algumas das práticas adotadas pelo grupo entrevistado. Com todas as limitações orçamentárias, de infraestrutura e de pessoal relatadas, as gestoras têm buscado uma atuação cumprindo uma trajetória acadêmica concomitante com a atividade editorial, além das demais funções no âmbito doméstico e familiar; não há um destaque ao gênero de quem exerce essa função de gestora. Refletir a partir da voz das mulheres gestoras, na direção das editoras universitárias baianas, contribui para trazer à tona essa dimensão de gênero muitas vezes silenciada, por ser um trabalho desenvolvido no âmbito de instituições públicas, que foge as atividades atribuídas às Instituições de Ensino Superior (IES): ensino, pesquisa e extensão.
*Susane Barros é Professora do Instituto de Ciência da Informação da Universidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA), diretora da Editora da UFBA (Edufba), Salvador-BA, Brasil.
**Flávia Rosa é Professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos sobre a Universidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador-BA, Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DANTAS, Carolina et al. Dinâmicas contemporâneas do setor editorial: o viés do mercado independente e regional da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2023. (Coleção Cult).
SILVEIRA, Mariana de Moraes. “Existe uma feminilização do trabalho editorial?”. Editorial.Varia Historia, Belo Horizonte, v. 38, n. 76, p. 9-14, jan./abr. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0104-87752022000100001. Acesso em: 28 abr. 2024.
