Gabriella Noronha*
Coordenadora
Editora Universidade do Estado de Minas Gerais
Elas são presença fundamental nas editoras, nos processos que vão desde a escrita dos textos, passando pelas tarefas de seleção, produção e distribuição, até as direções editoriais e nos próprios catálogos. No entanto, o campo da edição no Brasil e na América Latina é historicamente marcado pela presença e perspectiva dos homens, e foi somente a partir dos anos 1960 que as mulheres começaram realmente a conquistar espaço, inclusive no âmbito universitário. Nesse sentido, há uma espécie de apagamento da trajetória dessas profissionais, já que, em um universo eminentemente masculino, sua existência era praticamente invisível.
Essa crescente participação das mulheres na área editorial, fruto das lutas feministas e que tem seu recrudescimento observado no século XXI, ainda se traduz em desigualdades, como a predominância da ocupação feminina em posições de menor remuneração e poder, assim como o enfrentamento de dificuldades relacionadas ao gênero. Além disso, essas assimetrias estão presentes também no âmbito do sistema de ensino, no qual a edição universitária se insere, assim como das relações de trabalho entre docentes e entre as diferentes categorias de profissionais que integram o sistema educacional.
Sobre esses aspectos, basta olhar para os números: no Brasil, dados da Capes e da Unicamp de 2014 mostram que, embora as mulheres sejam a maioria das pessoas matriculadas nos cursos de graduação (54%) e na pós-graduação (51% dos concluintes do doutorado), são minoria entre os docentes, tanto da rede pública quanto na particular (45,5%)1. Além disso, ainda persiste a divisão sexual na alocação entre os cursos, em que as mulheres ocupam maior espaço no que se convencionou como áreas mais “femininas”, que abarcam as ciências humanas e a saúde, e os homens, nas áreas “masculinas”, incluindo as ciências exatas e tecnológicas.
Essa divisão se traduz também em uma desigualdade no mercado de trabalho, na medida em que as funções destinadas aos homens oferecem postos de maior prestígio e remuneração quando comparados aos oferecidos às mulheres. Somam-se à escassez de oportunidades as barreiras invisíveis, como o assédio e a parentalidade, ocasionando o que se convencionou chamar de “efeito tesoura”, ou seja, o escasseamento do número de mulheres à medida que se avança na carreira e, consequentemente, nos salários. Em pesquisa realizada em 2017 no mercado editorial argentino, por exemplo, a remuneração média para homens era 28% maior que a das mulheres.
Quando falamos dos cargos de chefia, o teto de vidro ocorre também na edição acadêmica: em um estudo de 2018 sobre as editoras de universidades federais brasileiras, verificou-se que, dos 43 gestores, apenas 16 eram mulheres (37,2%), concentradas principalmente na região sudeste do país. Em 2022, conforme dados da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU) em relação a todas as editoras filiadas, esse percentual aumentou para 41,7% (53 dos 127 cargos de direção eram ocupados por mulheres). Voltando aos dados relativos à Argentina, observou-se que, embora minoria na composição das editoras universitárias analisadas, as mulheres ocupam 56% das ocupações contratadas, sinônimas de flexibilização e precarização do trabalho.
Não obstante, essas análises quantitativas isoladas são insuficientes para retratar as questões relacionadas ao gênero no campo da edição. Somente nos últimos anos é que observamos iniciativas de registro da história das mulheres editoras, a partir da formação de grupos de estudos e espaços de discussão multidisciplinares, o que traz a impressão equivocada de que essas personagens não existiram. Partindo dessa constatação, iniciei em 2021 uma série de entrevistas com mulheres que dirigiram editoras universitárias importantes no cenário brasileiro. Em um primeiro momento, conversei com Sônia Queiroz, da Editora UFMG, Flávia Goulart Rosa, da Edufba, e Rita Argollo, da Editus, em razão tanto de suas contribuições para o campo da edição quanto pela própria notoriedade das instituições.
A Editora UFMG destaca-se no cenário editorial universitário brasileiro entre as mais profissionalizadas, possuindo um catálogo de mais de 1.300 obras e de 25 coleções. Sônia Queiroz foi uma das responsáveis pela estruturação e desenvolvimento da editora por quase uma década. Além disso, atuou e continua contribuindo em diversos projetos para formação profissional na área editorial na UFMG, como o Laboratório de Edição da Faculdade de Letras e os Cadernos Viva Voz. A Edufba também é uma editora consolidada, tendo sido uma das três consorciadas que lideraram a implantação do projeto SciELO Livros, contabilizando mais de 2.500 títulos publicados e dispondo de duas livrarias próprias. Flávia Goulart dirigiu a editora até 2022, e também possui uma extensa contribuição à área, tendo sido a primeira mulher a ocupar a Diretoria Executiva da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), de 2003 a 2005. Já a Editus – Editora da Uesc – se destaca no desenvolvimento de ações como o Editus Digital, em que se disponibilizam todos os livros para download gratuito seis meses após terem sido publicados, e a promoção de eventos que incentivam a leitura, a exemplo de feiras e visitas em escolas e em outros espaços. Rita Virginia Argollo é diretora da Editus desde 2012 e presidiu a ABEU entre 2019 e 2023, tendo desenvolvido ações importantes na área editorial acadêmica, como as feiras virtuais da associação.
O objetivo era, por um lado, narrar a trajetória de pioneiras na edição universitária, demonstrando como têm desempenhado papéis importantes na gestão dessas instituições. Por outro, busquei capturar os traços da “violência simbólica” de que trata Bourdieu, através da qual a ordem masculina se manifesta por meio de imposições tácitas e rotinas na divisão de trabalho. A necessidade de impor respeito, ajustar as vestimentas ou não se deixar subjugar pelas equipes são exemplos de situações relatadas que estão inseridas na questão de gênero. Foi possível perceber que todas elas têm suas histórias imbricadas na construção da editoração universitária no Brasil, tendo empreendido um grande esforço pessoal no sentido de encontrarem a solução para situações não raro desconhecidas e inesperadas, com o objetivo de aprimorar a edição em suas respectivas universidades.
Passados poucos anos, esse tipo de pesquisa ainda se mostra extremamente necessário, ampliando o alcance a mais mulheres e em diferentes postos de trabalho, para que se possa fomentar a reflexão sobre o ser mulher em um campo tão masculino. Dessa forma, como pesquisadores e como editores, temos a tarefa de descrever as contribuições, assim como os desafios, de tantas mulheres no desenvolvimento e profissionalização desse setor e as questões de gênero que perpassam essas histórias, como forma de garantir que seus trabalhos sejam valorizados e reconhecidos e, quem sabe, transformar esse cenário e construir um futuro mais equitativo.
1 Disponível em: https://abet-trabalho.org.br/por-que-as-mulheres-sao-maioria-na-pos-graduacao-mas-ocupam-menos-da-metade-dos-cargos-de-docencia-nas-universidades/.
* Gabriella Noronha é Doutoranda e mestra em Design, servidora de carreira do Estado de Minas Gerais desde 2008 e estuda as possibilidades de contribuição do design para a melhoria dos serviços públicos e com foco social.
BIBLIOGRAFIA:
RISTOFF, Dilvo et al (orgs.). A mulher na educação superior brasileira: 1991-2005. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2007, 292 p. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/diversas/temas_da_educacao_superior/a_mulher_na_educacao_superior_brasileira_1991_2005.pdf. Acesso em: 8 out. 2024.
MIHAL, Ivana. Mulheres na edição universitária: o caso argentino. Vinco – Revista de estudos de edição, Belo Horizonte, v. 1, n. 2, p. 93-112, 2021. Dossiê: Mulheres na Edição II.
TREVISAN, LAÍS VIERA ; CERETTA, SHANI CARVALHO ; CARVALHO, G. S. ; PINTO, N, G, M ; CORONEL, D. A. . Análise do perfil dos gestores das editoras universitárias federais brasileiras associadas à ABEU. REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO DA FATEA , v. 16, p. 133-148, 2018.
