Um pilar para a disseminação do conhecimento
Sandra Gisela Martín*
Diretora do Sistema de Bibliotecas
Universidad Católica de Córdoba, Argentina
Introdução
A edição de revistas científicas universitárias constitui um pilar fundamental na estrutura da comunicação científica. Por meio delas, as universidades não apenas cumprem sua missão de gerar e disseminar conhecimento, mas também se posicionam como atores-chave na circulação da produção científica e acadêmica. Por meio de suas revistas, as universidades contribuem para o avanço do conhecimento, ao fomento do debate científico e da discussão crítica entre pares.
De acordo com o Glossário Latindex (2020), as revistas de pesquisa científica publicam “predominantemente artigos resultantes de pesquisa (provenientes de projetos de pesquisa científica financiados com fundos públicos ou privados) ou estudos originais que contribuam para a disciplina da revista. Eles são obrigados a aplicar um sistema de arbitragem para a aprovação de artigos e tendem a ser altamente especializados em seus conteúdos.”
Importância das revistas científicas universitárias
Por sua vez, as revistas científicas universitárias cumprem múltiplas funções no ecossistema acadêmico. Em primeiro lugar, funcionam como plataformas de difusão da pesquisa realizada dentro das universidades, permitindo aos pesquisadores compartilhar os seus resultados com a comunidade acadêmica global.
Em segundo lugar, estas revistas são essenciais para o desenvolvimento profissional dos acadêmicos, especialmente dos mais jovens. Publicar em revistas científicas é um requisito comum para a obtenção de graus acadêmicos avançados, promoção nas universidades e obtenção de financiamento para pesquisas futuras. Dessa forma, as revistas científicas universitárias desempenham um papel crucial na carreira acadêmica dos pesquisadores.
Desafios cruciais
Apesar da sua importância, as revistas científicas universitárias enfrentam atualmente uma série de desafios. Um dos mais significativos é a crescente concorrência de revistas comerciais e de alto impacto, muitos dos quais têm maiores recursos e visibilidade. Esta situação faz com que os pesquisadores prefiram publicar em revistas comerciais para maximizar o impacto do seu trabalho, o que, por sua vez, contribui para diminuir a relevância das revistas universitárias.
Outro desafio são os questionados sistemas de avaliação da ciência e a pressão sobre os pesquisadores para publicarem em revistas de impacto, onde o quantitativo é priorizado em detrimento do qualitativo.
Além disso, a pressão para cumprir critérios de qualidade e rigor científico, como os estabelecidos pelos índices de citação e pelos sistemas de avaliação de revistas, pode ser abrumadora para algumas revistas universitárias. A necessidade de cumprir estes padrões pode desviar a atenção das necessidades locais ou de nicho que estas revistas têm tradicionalmente servido.
Por outro lado, a gestão editorial das revistas científicas universitárias enfrenta constantemente riscos de instabilidade, interrupções ou inclusive o seu possível desaparecimento. Estes riscos são exacerbados por diversos fatores, tais como mudanças frequentes de diretores, instabilidades econômicas e mudanças nas políticas editoriais das universidades. Além disso, a falta de um forte compromisso institucional para garantir a continuidade e sustentação destas publicações contribui significativamente para a sua vulnerabilidade. Esses desafios colocam em risco não só a continuidade das revistas, mas também a sua capacidade de cumprir a sua missão de disseminar e preservar o conhecimento acadêmico.
Oportunidades estratégicas
Apesar dos desafios, as revistas científicas universitárias também têm a oportunidade de inovar e se reinventar no contexto atual. Uma das oportunidades mais significativas é a adoção do acesso aberto como modelo que pode não só aumentar a visibilidade dos conteúdos, mas também fortalecer o papel social das universidades ao tornar o conhecimento científico acessível a todos.
Impulsionadas pelo acesso aberto, as revistas científicas universitárias promoveram uma aliança estratégica fundamental entre bibliotecas e editoras. As bibliotecas, que têm estado na vanguarda do movimento de acesso aberto, não só promoveram a democratização do conhecimento, mas também desempenharam um papel crucial no apoio à pesquisa nas universidades. Esta colaboração tem um potencial significativo para melhorar a qualidade e a visibilidade das revistas acadêmicas.
As bibliotecas universitárias, com a sua experiência na gestão da informação e o seu compromisso com a acessibilidade do conhecimento, estão bem posicionadas para oferecer uma ampla gama de serviços que fortalecem a qualidade editorial das revistas científicas. Estes serviços vão desde aconselhamento na implementação de políticas de acesso aberto e gestão de direitos de autor, até apoio técnico na utilização de plataformas de publicação digital. Além disso, as bibliotecas podem facilitar o acesso a recursos e ferramentas de avaliação que permitem que as revistas universitárias cumpram os padrões internacionais de qualidade, tais como sistemas de revisão por pares e critérios de indexação em bases de dados reconhecidas.
Por outro lado, as bibliotecas também desempenham um papel essencial na promoção e divulgação das revistas universitárias, garantindo que os conteúdos publicados cheguem a um público mais amplo. Através da curadoria e gestão de repositórios institucionais e portais de revistas, as bibliotecas podem ajudar a aumentar a visibilidade e o impacto das publicações, garantindo que os artigos sejam acessíveis não apenas dentro da comunidade universitária, mas também globalmente.
Esta sinergia entre bibliotecas e editoras universitárias contribui para a sustentabilidade do modelo de acesso aberto, dentro do qual o conhecimento gerado nas universidades é acessível a todos, sem barreiras econômicas ou geográficas.
Desta forma, a aliança estratégica entre bibliotecas e editoras no âmbito do acesso aberto representa uma oportunidade inestimável para aumentar a qualidade e o impacto das revistas científicas universitárias, consolidando o seu papel na construção e difusão do conhecimento na era digital.
As revistas universitárias também podem capitalizar a sua ligação direta com a academia para promover a interdisciplinaridade e a colaboração internacional. Dado que as universidades são espaços de interação entre múltiplas disciplinas, as revistas científicas universitárias estão numa posição ideal para publicar pesquisas que cruzam fronteiras disciplinares e geográficas.
Finalmente, as revistas universitárias podem desempenhar um papel fundamental, por um lado, na promoção de práticas éticas na pesquisa. Através de políticas editoriais claras e do fomento de uma cultura de integridade acadêmica, estas publicações podem ajudar a combater questões como o plágio, a manipulação de dados e o viés na pesquisa. E por outro lado, contribuir para a mudança de paradigma nos modelos de avaliação científica em que se priorize a qualidade em vez da quantidade e a avaliação ao nível do artigo com base na sua qualidade endossada por especialistas, em vez de utilizar critérios de impacto das revistas baseadas em indicadores e métricas quantitativas. Tal como expresso no Manifesto de Leiden (2015), “a avaliação da atividade de pesquisa deve ajustar-se à missão ou aos objetivos da instituição, pesquisador ou grupo que está sendo avaliado”.
Conclusão
Em síntese, a edição de revistas científicas universitárias continua a ser uma componente essencial no ecossistema da comunicação científica. Apesar dos numerosos desafios que enfrentam, desde a concorrência com revistas comerciais até à necessidade de adaptação a um mundo digital em constante mudança, estas publicações desempenham um papel insubstituível na promoção e disseminação do conhecimento acadêmico. Ao abraçar as oportunidades oferecidas pela era digital e reafirmar o seu compromisso com a qualidade e a acessibilidade, as revistas científicas universitárias continuam sendo pilares na construção e transmissão do saber, ao serviço tanto da comunidade acadêmica como da sociedade em geral.
*Sandra Gisela Martín é doutora pela Universidad de Buenos Aires, área de Biblioteconomia e Documentação. É diretora do Sistema de Bibliotecas da Universidad Católica de Córdoba e professora da Escola de Biblioteconomia da Universidad Nacional de Córdoba, Argentina.
Bibliografía
Manifiesto de Leiden sobre Indicadores de Pesquisa (2015). http://www.leidenmanifesto.org/uploads/4/1/6/0/41603901/manifiesto_cast.pdf
Latindex (2020). Glossário Latindex.
https://www.latindex.org/lat/documentos/Glosario_Latindex_esp.pdf
