As publicações acadêmicas no ecossistema do livro no Equador

Nadesha Montalvo R. *
FLACSO Ecuador

Durante uma década, a ideia de que no Equador lemos meio livro por ano foi repetida como um mantra na mídia, em fóruns especializados e em discursos políticos. Supõe-se que os dados tenham origem na pesquisa “Hábitos de Leitura no Equador”, realizada em 2012 pelo Instituto Ecuatoriano de Estadística y Censos (INEC). Isto indicou que 73% dos equatorianos tinham o hábito de ler, enquanto 27% não. 28% das pessoas leem livros, mas em nenhuma parte deste estudo foi observado quantos livros ou fragmentos de livros os equatorianos leem. A cifra de meio livro por ano se espalhou como um incêndio, embora seja um dado que não pode ser sustentado.

Em 2022, o Ministério da Cultura e Património publicou a “Pesquisa aos hábitos de leitura, práticas e consumos culturais”. Os resultados indicaram que 77% das pessoas leem diariamente. Todas essas pessoas leem livros, um completo por ano e dois incompletos. Neste caso, os livros lidos foram quantificados.

Neste breve texto retiro diversos dados de ambos os estudos, principalmente daqueles que se referem a livros acadêmicos. Mas primeiro, duas advertências. Um: sou editora de trabalhos de ciências sociais; estatística não é meu ponto forte. Dois: mesmo sem ser especialista, posso apontar que é arriscado comparar os estudos de leitura de 2012 e 2022 porque não são formulados da mesma forma. Por exemplo, participaram do primeiro estudo pessoas com 16 anos ou mais (dados da ficha técnica). No segundo estudo, a idade dos participantes não é informada na ficha técnica, mas os resultados são oferecidos para pessoas a partir dos cinco anos. No primeiro estudo, o hábito de leitura por idade aparece em apenas um dos 14 slides, enquanto o segundo é estruturado por faixas etárias e a maior parte dos resultados é apresentada para cada uma delas. O segundo estudo inclui variáveis ​​como “dispositivo de leitura” ou “formato”, que não aparecem no primeiro. Enfim, com as advertências informadas, vamos aos dados.

Na pesquisa de 2012, o grupo de leitura por excelência é o dos 16 aos 24 anos. 83% dessas pessoas indicaram que tinham o hábito de ler. As três “razões” mais importantes para passarem tempo lendo foram: 1) achavam que era necessário para a escola ou para o escritório, 2) precisavam saber mais sobre um assunto ou 3) procuravam obter informações.

Na pesquisa publicada em 2022, a população que mais lê é a faixa etária de 12 a 17 anos, seguida pelas pessoas de 18 a 34 anos. A pesquisa de 2022 não aborda os motivos da leitura, mas sim o “incentivo à leitura”, por exemplo, se as pessoas leem por “iniciativa própria” ou por incentivo dos “pais” (nossa, as mães não desempenharam nenhum papel?). Os mais jovens atribuíram peso semelhante à iniciativa própria e ao incentivo dos pais. Por outro lado, 95% das pessoas entre os 18 e os 34 anos indicaram que leem por iniciativa própria.

O que é preferido no Equador, livros ou jornais? Em 2012, 31% das pessoas indicaram que liam um jornal no seu tempo livre, em comparação com 28% que preferiam um livro. Em 2022, o livro está em primeiro lugar com 57%, em comparação ao jornal, com 41%. Uma escalada importante!

Quais livros você lê? Na pesquisa de 2012 não há dados desagregados sobre o tipo de livro lido, mas vamos lembrar os motivos da leitura: estudar, saber algo, buscar informação. Não seria descabido indicar que a leitura para fins de pesquisa estava bem posicionada em 2012. Na pesquisa de 2022, os dois grupos que mais leem – dos 12 aos 17 e dos 18 aos 34 anos – preferem livros “académicos e de pesquisa”. E aqui vai a boa notícia para as editoras universitárias, já que esses livros ocupam o primeiro lugar entre todas as opções, com 61%.

Passemos para o outro lado: de olhar para a leitura para o consumo, vamos focar na publicação, ou seja, na produção. O relatório “O livro no Equador” (Câmara Equatoriana do Livro 2022) indica que, em 2022, as universidades publicaram 1.584 títulos de um total de 5.246 que surgiram naquele ano. 30% de todos os livros publicados no país!
Agora estou pronta para passar dos detalhes às generalidades. Não importa como se olhe, é possível afirmar que no Equador os livros acadêmicos são protagonistas do ecossistema. São o material de leitura preferido entre todos os livros e ocupam um lugar importante entre toda a produção editorial do Equador. O público equatoriano está lendo os livros produzidos pelas universidades do país? A resposta não aparece nas fontes citadas, mas é claro que esse é um dos objetivos das editoras universitárias.

Duas abordagens permanecem em cima da mesa para o Estado e um convite para o público. A primeira abordagem: se ambos os estudos foram realizados pelo setor público, por que não foi seguida a mesma estrutura para facilitar a comparação e avaliação da política pública implementada? É uma pergunta retórica. Já sabemos que o esporte nacional é a refundação de tudo, desde a pátria até a pesquisa sobre hábitos de leitura. Segunda: seria muito benéfico que todos os atores do ecossistema do livro conhecessem mais sobre o consumo do público leitor no país, uma vez que há poucos dados nos dois estudos que possam servir para orientar os diferentes atores da indústria editorial.

E por fim o convite, dirigido especialmente ao público leitor interessado em livros “acadêmicos e de pesquisa”. Os acervos das editoras universitárias equatorianas apresentam uma oferta diversificada e de qualidade, com muitas obras publicadas em acesso aberto. Desta forma, as universidades do país se apropriam do importante papel que desempenham no ecossistema do livro no Equador.

* Editora técnica da FLACSO Equador, ex-presidente da Rede de Editoras Universitárias do Equador (REUDE). Mestrado em Estudos Culturais pela Universidad Andina Simón Bolívar.

1 Instituto Nacional de Estatística e Censo. 2012. “Hábitos de lectura en Ecuador. October 2012”. https://www.ecuadorencifras.gob.ec//wp-content/descargas/presentacion_habitos.pdf. Arredondei as porcentagens.

2 Ministério da Cultura e do Patrimônio / Sistema Integral de Información Cultural (SIIC). 2022. “Encuesta de hábitos lectores, prácticas y consumos culturales”. https://bit.ly/3xlFccM. As porcentagens foram arredondadas.

3 Cámara Ecuatoriana del Libro. 2022. “Estadísticas ISBN”. https://www.celibro.org.ec/pagina/estadisticas-isbn/

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