As publicações científicas nas suas línguas de origem

Raquel da Silva Ortega
Doutora em Estudos Literários Hispânicos (UFRJ)
Professora Adjunta (UESC)

No mestrado e no doutorado, estudei aspectos da obra de Ramón del Valle-Inclán. Escritor espanhol do final do século XIX e início do século XX, é considerado um dos principais nomes da literatura espanhola e, de acordo com a crítica literária, um dos mais importantes escritores do seu tempo. No entanto, fora do âmbito dos estudos do Hispanismo, Valle-Inclán não é tão conhecido como outros escritores da sua época, que escreveram em outras línguas. “É o estigma do idioma”, disse-me uma vez a minha orientadora. Conto esta história para ilustrar a pouca visibilidade de outras línguas que não são o inglês nas ciências, de maneira geral.

De acordo com o relatório O português e o espanhol na ciência: notas para um conhecimento diverso e acessível1, apenas 1% da produção científica mundial é indexada em português ou em espanhol, apesar de haver 850 milhões de falantes desses dois idiomas em quatro continentes. Por outro lado, 87% dos cientistas espanhóis, 97% dos cientistas portugueses, 88% dos cientistas brasileiros e mexicanos e 80% dos cientistas colombianos, argentinos ou peruanos publicam em língua inglesa (2021, p. 11).

É interessante pensar como nós, pesquisadores latino-americanos, discutimos, debatemos, interagimos, pensamos nos nossos idiomas, mas damos a conhecer a nossa pesquisa em inglês. Os estudos sobre as diferenças translinguísticas em cognição, crescentes nas últimas décadas, sinalizam que a formulação do pensamento difere de idioma a idioma e que, mesmo pessoas bilingues tendem a expressar pensamentos diferentes de acordo com o idioma utilizado2. Se consideramos estas ideias, é pertinente ter em conta que estamos publicando nossas pesquisas em um idioma com lógica cognitiva diferente daquela na qual o conhecimento da pesquisa foi elaborado.

Por outro lado, é inegável que a publicação científica em um único idioma internacional – por convenção, o inglês – colabora para a divulgação das nossas pesquisas além das nossas fronteiras. O problema é quando se considera este idioma como o único digno do discurso científico e quando os resultados de outras pesquisas são desconsiderados simplesmente por não estarem publicados no idioma hegemônico.

Esta discussão envolve vários aspectos de ordem social, política e econômica. Há estigmas relacionados aos idiomas que não são falados nos países de maior poder econômico e a produção científica nesses idiomas é, ainda hoje, vista com desconfiança.

Como sugestão para tentar superar essas questões, a Iniciativa de Helsinki sobre o Multilinguismo na Comunicação Científica lançou em 2019 a campanha Multilinguismo na Comunicação Científica3, que preconiza a divulgação científica no seu idioma de origem, como forma de fortalecer a comunicação acadêmica nas línguas nacionais. A campanha tem como base apoiar a divulgação dos resultados da pesquisa para o total benefício da sociedade de origem; proteger as infraestruturas nacionais que publicam pesquisas relevantes a nível local e promover a diversidade linguística em sistema de avaliação e financiamento de pesquisas publicadas não apenas na língua internacional.

Como podemos chegar a um ponto de diálogo entre a valorização da pesquisa nos idiomas de origem e a sua divulgação além das fronteiras nacionais? Não acredito em uma resposta imediata e definitiva, mas, um primeiro passo talvez seja o incentivo de publicações bilíngues – no idioma de origem e em inglês. Não é uma solução simples, uma vez que implica em mudanças editoriais como espaço para publicação, volume, número, alterações de layout, tradução e revisão constante em mais de um idioma, aumento de custos, etc. No entanto, pode ser um passo inicial para um diálogo justo e de valorização da pesquisa nas línguas nacionais, sem desconsiderar os esforços por uma internacionalização das pesquisas.

1 BADILLO, Angel Badillo. O português e o espanhol na ciência: notas para um conhecimento diverso e acessível. Madrid, Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI)/ Real Instituto Elcano, 2021.

2 COMO a linguagem modela o pensamento. Scientific American Brasil. Disponível em:<https://sciam.com.br/como-a-linguagem-modela-o-pensamento/>.

3 Helsinki Initiative on Multilingualism in Scholarly Communication. Disponível em: <https://doi.org/10.6084/m9.figshare.7887059>.

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