Favio Andrés Flórez Carranza
A América Latina ocupa um lugar especial no ecossistema global da comunicação científica: embora grande parte da ciência mundial tenha migrado para modelos de acesso aberto sustentados por taxas de publicação (APC, Article Processing Charges), a região consolidou um modelo alternativo baseado no financiamento institucional e público, no qual nem os leitores nem os autores pagam para acessar ou publicar conhecimento. Esse modelo, impulsionado principalmente por universidades públicas e privadas com vocação acadêmica e concebido, em grande medida, para competir com os indicadores internacionais de posicionamento e impacto, tem sido uma das expressões mais sólidas da democratização do conhecimento científico no mundo contemporâneo.
As editoras universitárias e os sistemas de periódicos científicos latino-americanos não surgiram sob uma lógica comercial, mas como uma extensão da missão universitária: produzir, difundir e preservar o conhecimento como um bem público. Algumas iniciativas, como SciELO, Redalyc e Latindex, demonstraram precocemente que era possível construir infraestruturas de validação e circulação científica sem depender exclusivamente das grandes corporações editoriais internacionais. Graças a isso, milhares de pesquisadores, estudantes e cidadãos da América Latina encontraram um acervo normalizado e compilado para acessar livremente resultados de pesquisa relevantes para seus contextos sociais, culturais e econômicos.
No entanto, o sucesso ético e político desse modelo não elimina suas tensões estruturais. Pelo contrário, hoje é evidente que o acesso aberto diamante enfrenta desafios crescentes de sustentabilidade. Durante anos, consolidou-se a percepção de que publicar em acesso aberto “gratuito” equivalia a publicar sem custos. Nada mais distante da realidade. Por trás de cada artigo científico existe uma complexa cadeia de processos editoriais, administrativos e operacionais que exige infraestrutura, continuidade das equipes de trabalho e investimento permanente: gestão editorial especializada, sistemas de verificação de similaridade textual e de escrita com inteligência artificial generativa (antiplágio), gestão da revisão por pares, revisão de texto, diagramação, publicação, indexação, gestão e enriquecimento de metadados, divulgação científica, cienciometria e bibliometria, além das atividades de manutenção.
A isso soma-se um elemento decisivo: a crescente sofisticação dos padrões internacionais de publicação acadêmica e científica. A produção de XML JATS, indispensável para a interoperabilidade com sistemas de indexação e leitura avançada, já não constitui um luxo técnico, mas um requisito básico para competir globalmente. Os produtos derivados dessa marcação — múltiplos formatos de leitura, integração semântica, mineração de dados, métricas em nível de artigo e circulação automatizada em ecossistemas globais — demandam capacidades altamente especializadas e custos sustentados ao longo do tempo. Da mesma forma, garantir disponibilidade irrestrita vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, implica servidores dimensionados de acordo com a quantidade de acessos, janelas de manutenção, serviços de suporte e atendimento a incidentes, segurança digital e preservação permanente.
Paradoxalmente, grande parte da comunidade acadêmica parece aceitar com naturalidade o pagamento de valores elevados por cursos livres ou de curta duração, plataformas de formação ou conteúdos de acesso temporário e restrito, enquanto persiste certa resistência à ideia de financiar a publicação científica aberta. No entanto, um artigo acadêmico de qualidade internacional possui um valor diferencial evidente: constitui um produto de conhecimento validado por pares, disponível globalmente e preservado permanentemente para as futuras gerações. Seu impacto potencial transcende fronteiras, idiomas e temporalidades.
Isso nos leva a repensar o debate sobre os APC sob uma nova perspectiva, talvez menos ideológica e mais estratégica. O problema não reside necessariamente na existência de taxas de processamento de artigos, mas nas profundas desigualdades e distorções que alguns modelos comerciais geraram. A América Latina não deveria renunciar aos seus princípios históricos de democratização do conhecimento, mas poderia explorar modelos híbridos e diferenciados que permitam garantir a sustentabilidade sem sacrificar a inclusão. Não é segredo para ninguém que a SciELO, com sua promessa ideológica de acesso aberto irrestrito, vendeu sua coleção para a Web of Science antes de sua aquisição pela Clarivate. Por sua vez, a plataforma Redalyc manifestou abertamente seus problemas financeiros e o risco iminente para a continuidade de seus serviços.
Nesse contexto, APCs razoáveis, transparentes e proporcionalmente ajustados às realidades regionais poderiam tornar-se uma ferramenta legítima para fortalecer os periódicos científicos universitários. Um modelo bem concebido permitiria profissionalizar ainda mais as equipes editoriais, modernizar infraestruturas tecnológicas, melhorar os processos de visibilidade internacional e assegurar a permanência de publicações que hoje sobrevivem graças ao enorme esforço institucional e humano das universidades. Já contamos na Colômbia com um precedente de migração para o modelo dourado em uma instituição pública, com uma taxa próxima de 250 dólares por APC. Trata-se da Revista Colombiana de Ciencias Pecuarias. Longe de representar uma perda da identidade da revista, na captação de artigos ou na percepção geral de seus leitores, a publicação mantém um número razoável de artigos em processo e publicados, além de continuar aumentando sua visibilidade e impacto de citação.
Considero que a discussão já não pode se concentrar apenas em cobrar ou não cobrar. A verdadeira pergunta deveria ser como construir mecanismos sustentáveis, éticos e equitativos que permitam preservar a autonomia editorial latino-americana e evitar o desaparecimento progressivo de periódicos acadêmicos e científicos de alta qualidade. Defender o acesso aberto não implica ignorar os custos reais da comunicação científica contemporânea. Pelo contrário, significa reconhecer que a democratização do conhecimento também exige garantias das condições materiais que tornam possível sua existência, circulação e preservação futura.
As editoras universitárias latino-americanas continuam sendo atores fundamentais para uma ciência mais aberta, plural e socialmente relevante. Mas, para manter essa liderança global, será indispensável abandonar a falsa dicotomia entre gratuidade absoluta e mercantilização extrema. O desafio do futuro consistirá em encontrar modelos de sustentabilidade compatíveis com a missão universitária, capazes de proteger simultaneamente o acesso democrático ao conhecimento e a viabilidade estrutural dos periódicos científicos que o tornam possível.
