Lizbeth Alvarado Campos de Gozzer
Nos últimos dois anos, com o advento da inteligência artificial (IA), uma das principais
questões que os editores universitários têm se perguntado é como a IA está mudando
— e mudará — a edição e seus processos editoriais e acadêmicos. As posições não
demoraram a surgir e, como é habitual nesses casos, sempre se chega à polarização.
Por um lado, a mais radical sugere que estamos vivendo em uma cena de um filme
distópico, onde o ecossistema editorial se reduz a três máquinas: a que escreve, a que
avalia e a que produz. Por outro lado, há a visão mais otimista, que parte do princípio
de que não há motivo para preocupação, pois assim como essa tendência surgiu, ela
também irá passar. Entre essas duas posições, existe uma terceira perspectiva que
reconhece o potencial da IA sem perder de vista o fundamento epistemológico que
orienta a edição acadêmica.
Essa última perspectiva é a que me parece não apenas a mais acertada, mas
também a mais realista. A IA não é uma ilusão: é a demonstração de que a tecnologia
pode reconfigurar processos e potencializá-los. No entanto, é o ser humano quem
decide como fazê-lo e até onde ir com essas mudanças, que, neste momento, são mais
operacionais do que estruturais e estratégicas. A IA não é um sistema neutro, mas sim
alimentada por posições, preconceitos e informações que devem ser analisadas e
supervisionadas (Floridi, 2023). Ou seja, as máquinas já escrevem, revisam e
produzem, mas é o editor —com seus critérios editoriais— quem detém o poder de
decidir qual conhecimento circula e qual não. Pelo menos, até hoje.
Mas o que é que nos assusta tanto? Não parece ser a existência e o uso de
ferramentas inovadoras, nem a automação de tarefas operacionais que, durante anos,
representaram uma perda de tempo, mas sim o fato de que o julgamento, o critério, o
conhecimento contextualizado e o trabalho editorial possam desaparecer ou ser
substituídos. A pesquisa e a redação científica não se baseiam apenas na forma, mas
no conteúdo, no que é dito, nos resultados de um trabalho que se sustenta em um
método. Por isso, a intervenção de uma máquina não deve se sobrepor nem à
construção do conhecimento nem à avaliação ou decisão sobre o que é publicado ou
não. Diante desse cenário, por exemplo, o International Committee of Medical Journal
Editors (2026) incorporou diretrizes que exigem transparência no uso da IA, mas que
não isentam de responsabilidade o autor nem o editor.
As editoras universitárias têm a missão de preservar o conhecimento produzido
nas salas de aula, nos laboratórios e na academia em geral. Ora, esse conhecimento
deve ser validado para depois ser divulgado à sociedade. Nesse processo, o trabalho
editorial é o que confere aos textos qualidade, atualidade e legitimidade. As editoras
acadêmicas e universitárias não são um intermediário técnico, mas um agente-chave
dentro do ecossistema que continua tendo a responsabilidade de como utiliza a IA a
seu favor. Por isso, o desafio que a tecnologia nos apresenta é estabelecer os limites e
alcances que não afetem o conhecimento acadêmico.
Referências bibliográficas
Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (2023). Recomendações para a
condução, relato, edição e publicação de trabalhos acadêmicos em revistas médicas
(atualização sobre o uso de IA em 2026). https://www.icmje.org/recommendations/
Floridi, L. (2023). A Ética da Inteligência Artificial: Princípios, Desafios e Oportunidades.
Oxford University Press.
